{"id":1184,"date":"2015-04-06T01:49:38","date_gmt":"2015-04-06T01:49:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.umsocorpo.com.br\/site\/historia-dos-hebreus\/?p=1184"},"modified":"2015-04-06T01:49:38","modified_gmt":"2015-04-06T01:49:38","slug":"prefacio-de-josefo-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/umsocorpo.com.br\/historia-dos-hebreus\/prefacio-de-josefo-3\/","title":{"rendered":"Pref\u00e1cio de Josefo"},"content":{"rendered":"<p><em>T<\/em>endo me determinado escrever, para mostrar que a raz\u00e3o, acom panhada pela virtude e pela piedade, domina as paix\u00f5es, pe\u00e7o a aten\u00e7\u00e3o de todos os que lerem o que se segue. O assunto o merece, pois nos \u00e9 muito importante sabermos que a raz\u00e3o nos fornece armas para ven\u00adcer, pela temperan\u00e7a, a gula e a impureza; pela justi\u00e7a, a injusti\u00e7a e a mal\u00edcia, e pela generosidade, a covardia e o temor.<\/p>\n<p>Mas, dir-se-\u00e1, se a raz\u00e3o domina as paix\u00f5es, por que n\u00e3o se torna ela tamb\u00e9m senhora da ignor\u00e2ncia e do olvido? Esta quest\u00e3o \u00e9 de pouca import\u00e2ncia. Pois o ju\u00edzo n\u00e3o pode vencer os defeitos, que se encontram em si mesmo, embora sobrepuje pela raz\u00e3o as paix\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 temperan\u00e7a, \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 generosi\u00addade e a raz\u00e3o n\u00e3o as domina, destruindo-as, mas n\u00e3o se conformando com elas.<\/p>\n<p>Ser-me-ia f\u00e1cil mostrar por meio de v\u00e1rios exemplos que \u00e9 muito verdade que ela domina as paix\u00f5es. Mas nada pode provar mais claramente que a const\u00e2ncia invenc\u00edvel com que Eleazar, sete irm\u00e3os e sua virtuosa m\u00e3e, por meio de a\u00e7\u00f5es her\u00f3icas de virtude, deram suas vidas pela defesa da pr\u00f3pria f\u00e9 e mostram at\u00e9 o \u00faltimo respiro pelo desprezo dos tormentos mais horr\u00edveis, que a raz\u00e3o, quando \u00e9 acompanhada pela virtude e pela piedade, domina as paix\u00f5es. Contentar-me-ei, portanto, de relatar essa hist\u00f3ria, pois que a coragem e a paci\u00eancia desses genero\u00adsos m\u00e1rtires n\u00e3o somente foram admirados por testemunhas de seu supl\u00edcio, mas por seus pr\u00f3prios algozes; e tendo vencido por sua const\u00e2ncia a crueldade de um pr\u00edncipe t\u00e3o cheio de furor, seu sofrimento trouxe tranq\u00fcilidade para sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Vou, por\u00e9m, retomar meu primeiro discurso, para dar a gl\u00f3ria que \u00e9 devida \u00e0 sabedoria infinita de Deus. Trata-se ent\u00e3o de saber: se a raz\u00e3o \u00e9 senhora das paix\u00f5es; o que \u00e9 a raz\u00e3o, o que s\u00e3o as paix\u00f5es, qual a diferen\u00e7a entre elas e se a raz\u00e3o domina a todas.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o outra coisa n\u00e3o \u00e9 que a justeza do esp\u00edrito unida a uma sabedoria que nos serve de regra em nosso proceder e em nossas a\u00e7\u00f5es. A sabedoria consiste no conhecimento das coisas divinas e humanas. Esse conhecimento mesmo nos d\u00e1 a compreens\u00e3o de nossa lei, nos ensina a reverenciar a Deus, nos instrui sobre o que \u00e9 \u00fatil ao bem geral de todos os homens. A temperan\u00e7a, a justi\u00e7a, a prud\u00ean\u00adcia e a generosidade s\u00e3o efeitos dessa sabedoria, mas a prud\u00eancia eleva-se acima das outras e \u00e9 por ela que a raz\u00e3o domina as paix\u00f5es. Entre essas paix\u00f5es h\u00e1 duas que compreendem todas as demais: o prazer e a dor; embora perten\u00e7am ao corpo, ele n\u00e3o as abriga, que por causa de sua rela\u00e7\u00e3o com a alma, que, por seu lado, tamb\u00e9m tem seu prazer e sua dor. Outras paix\u00f5es acompanham estas. O desejo precede o prazer e a alegria o segue. O temor precede a dor e a tristeza a segue; a c\u00f3lera \u00e9 uma paix\u00e3o que se refere ao prazer e \u00e0 dor. Ela nos leva a destruir o que nos priva de algum prazer e nos irrita contra o que nos causa dor.<\/p>\n<p>Quando a voluptuosidade chega a se tornar um mau h\u00e1bito, causa diversas paix\u00f5es espirituais e corporais. O esp\u00edrito deixa-se levar \u00e0 vaidade, \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o, \u00e0 inveja, \u00e0 teimosia, e o corpo aos excessos da boca. Essas m\u00e1s plantas produzem v\u00e1rios rebentos que a raz\u00e3o, como um s\u00e1bio jardineiro corrige e corta, como sendo guia das virtudes e senhora das paix\u00f5es. Come\u00e7a por reprimir as que s\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0 temperan\u00e7a, combate os maus desejos, quer espirituais, quer corpo\u00adrais, e vence a uns e outros; \u00e9 por ela que nos abstemos de comer coisas que a lei pro\u00edbe e nos moderamos nas de que nos permite o uso, por mais repugn\u00e2ncia que o corpo sinta; tanto \u00e9 verdade que seus movimentos desregrados s\u00e3o repri\u00admidos pela temperan\u00e7a, que a raz\u00e3o nos torna am\u00e1vel.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos nos admirar de que essa mesma raz\u00e3o tenha tamb\u00e9m o poder de vencer as mais violentas paix\u00f5es da alma, e apagar o fogo que o amor da beleza acende? Quem, entretanto, pode duvidar de que ela n\u00e3o opere com esse poder, pois, n\u00e3o louvar\u00edamos tanto a castidade de Jos\u00e9, se no ardor de sua juventude ela n\u00e3o lhe tivesse feito dominar os atrativos da voluptuosidade?<\/p>\n<p>A raz\u00e3o n\u00e3o apenas vence as paix\u00f5es agrad\u00e1veis, mas de todas ela sai vence\u00addora: Por isso a lei diz: N\u00e3o desejareis a mulher do pr\u00f3ximo nem algo que lhe perten\u00e7a. Como a lei nos pro\u00edbe desejar, n\u00e3o \u00e9 claro que ela nos julga capazes de vencer nossos desejos e as paix\u00f5es que s\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0 justi\u00e7a? Do mesmo modo, se a raz\u00e3o n\u00e3o dominasse as paix\u00f5es, como os que s\u00e3o levados \u00e0 gula poder-se-iam corrigir desse v\u00edcio? Como aqueles que naturalmente s\u00e3o avarentos poder-se-iam resolver a emprestar sem juros? Mas lembrando-se de que a lei pro\u00edbe a usura e todos os outros ganhos il\u00edcitos, eles reprimem pela raz\u00e3o o desejo do lucro. Podemos julgar do mesmo modo nas outras coisas que a lei determina que a raz\u00e3o domina as paix\u00f5es. Assim, por maior respeito que tenhamos por nossos pais, a obriga\u00e7\u00e3o de obedecermos \u00e0 lei impede-nos que fa\u00e7amos algo para agrad\u00e1-los, contr\u00e1rio \u00e0 virtude; por maior amor que tenhamos para nossas esposas n\u00e3o deixamos de repreend\u00ea-las por seus defeitos; por maior ternura que sintamos por nossos filhos, ela n\u00e3o nos impede castig\u00e1-los para corrigi-los de suas faltas; por mais amizade que tenhamos por nossos amigos, n\u00e3o deixamos de censur\u00e1-los quando fazem o mal; e o que \u00e9 ainda mais dif\u00edcil, n\u00e3o somente nos n\u00e3o vingamos de nossos inimigos, nem lhes cortamos as \u00e1rvores frut\u00edferas, mas se encontramos o que eles perderam n\u00f3s lhes restitu\u00edmos, e n\u00e3o lhes recusamos nosso aux\u00edlio em suas necessidades, como por exemplo, ajudando-os a levantar os animais nalguma queda.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o torna-se assim senhora das paix\u00f5es, at\u00e9 das mais violentas, como a ambi\u00e7\u00e3o, a vaidade, a inveja e o \u00f3dio. Por isso Jac\u00f3, nosso pai, cuja bondade e sabedoria n\u00e3o podemos estimar assaz, repreendeu severamente a Sime\u00e3o e Levi pela matan\u00e7a que haviam feito entre os siquemitas, dizendo: &#8220;Que vossa c\u00f3lera e furor, por que vos deixastes levar, sejam malditos&#8221;. Como poderia ter ele falado desse modo se a raz\u00e3o n\u00e3o tivesse sobrepujado em seu cora\u00e7\u00e3o o ressentimento pelo ultraje feito \u00e0 sua filha?<\/p>\n<p>Quando Deus, criando o homem, com uma s\u00f3 palavra, deu-lhe o livre-arb\u00ed-trio, rodeou-o e o revestiu de diversas paix\u00f5es, colocou seu esp\u00edrito sobre um trono, para domin\u00e1-las e deu-lhe depois leis, por meio das quais ele poderia faz\u00ea-lo e outrossim reinar sobre elas a temperan\u00e7a, a bondade e a justi\u00e7a. Como ent\u00e3o poder-se-ia dizer: se a raz\u00e3o \u00e9 senhora das paix\u00f5es, por que n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m dominadora da ignor\u00e2ncia e do olvido? Essa pergunta n\u00e3o \u00e9 extravagante, pois \u00e9 evidente que o entendimento que forma nossa raz\u00e3o n\u00e3o pode, como eu disse, ser vitorioso sobre si mesmo, mas somente sobre as paix\u00f5es? Podemos ter m\u00e1s inclina\u00e7\u00f5es, mas a raz\u00e3o nos d\u00e1 for\u00e7a de venc\u00ea-las. N\u00f3s n\u00e3o poder\u00edamos n\u00e3o ter desejos, mas a raz\u00e3o pode nos impedir de segui-los. N\u00f3s n\u00e3o poder\u00edamos deixar de ser movidos pela c\u00f3lera, mas a raz\u00e3o pode nos conter, para n\u00e3o nos deixar\u00admos levar por ela. N\u00f3s n\u00e3o poder\u00edamos nos despojar de nossas paix\u00f5es, mas a raz\u00e3o pode resistir-lhes. Davi disso nos d\u00e1 um belo exemplo: Depois de ter, du\u00adrante todo o dia perseguido os inimigos, matou um grande n\u00famero deles, voltou \u00e0 noite para sua tenda, cansad\u00edssimo e com muita sede. Todos os seus puseram-se a comer e por mais ardente que fosse a sede e embora houvesse ali fontes e nascentes, ele n\u00e3o quis beber porque estava resolvido a matar a sede com a \u00e1gua de uma fonte que ainda estava em poder dos inimigos. Tr\u00eas daqueles valorosos oficiais, que jamais o abandonavam, comovidos por v\u00ea-lo sofrer tanto e sabendo do seu desejo, tomaram as armas e um vaso, atravessaram as defesas do inimigo e sem que os guardas percebessem, passaram pelo seu acampamento, chega\u00adram \u00e0 fonte, encheram o vaso e o trouxeram ao seu rei. Ent\u00e3o, embora o grande rei ardesse de sede, julgou n\u00e3o poder, sem impiedade, beber de uma \u00e1gua que ele considerava como sendo o mesmo sangue, porque aqueles que a tinham trazido tinham se exposto para consegui-la, ao risco de perder a vida. Assim resistindo pela raz\u00e3o ao seu desejo, ele a derramou e ofereceu a Deus. V\u00ea-se, pois, por estas palavras, que n\u00e3o h\u00e1 paix\u00e3o que a raz\u00e3o n\u00e3o possa dominar, nenhum ardor que ela n\u00e3o seja capaz de extinguir, nenhuma dor que ela n\u00e3o tenha a for\u00e7a de superar e nenhuma luta de paix\u00f5es de que n\u00e3o seja vitoriosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tendo me determinado escrever, para mostrar que a raz\u00e3o, acom panhada pela virtude e pela piedade, domina as paix\u00f5es, pe\u00e7o a aten\u00e7\u00e3o de todos os que lerem o que se segue. 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